Crônicas

Nada de novo no front II

Começamos mais um ano e notícias de guerra voam pelos ares, atravessam fronteiras e chegam às nossas casas, em todas as casas.

A despeito da poesia e da vida, velhos amargurados jogam meninos no campo de batalha e exigem vitória.

A despeito do pulso e do pulsar das coisas, estes mesmos velhos, donos do mundo, brincam com fronteiras e bandeiras, ignoram sonhos e seguem arrotando e resmungando superioridades.

Começamos mais um ano. As bombas ainda caem na Ucrânia. A novidade, agora, é de bombas na Venezuela.

Exércitos são preparados e mais jovens seguem para os moedores de gente.

A despeito do amor e das cartas e promessas, os enferrujados velhos ou velhacos, na sua sordidez natural, alimentam o ódio e fazem os jovens desaprenderem a olhar com calma as coisas.

Começamos mais um ano e mais um ditador (sempre haverá ditadores) segura o mundo nas mãos e gira e gira no movimento dos seus caprichos e das suas ganâncias…

A despeito do mar e do azul das águas. A despeito do vento fresco no rosto e de todos os bons livros a serem lidos. A despeito das flores e das folhas e do baile dos pássaros… A despeito de tudo o que faz sentido para os que apreciam a vida de verdade (nos seus sabores e dissabores) …

Começamos mais um ano e seguimos resistindo ao fascismo, ao egoísmo, ao fanatismo e todos os ismos contrários ao humano.

Começamos mais um ano e a poesia é a melhor e maior resistência que há em cada um de nós.

Se não houvesse poesia nos olhos da menina… Se não houvesse poesia na rua, na esquina… Se não houvesse poesia no comer o pão em cada dia… Não valeria a pena seguir.

E seguimos, a despeito dos ditadores!

Estes cínicos senhores não sabem rir e não querem que ninguém ria.

Estes cínicos senhores não gostam de poesia e, por isso, enevoam o céu com bombas. Com tanta fumaça, não dá mesmo pra apreciar a vida!

Começamos mais um ano e insistimos na poesia e você sabe o porquê?

Porque só a poesia pode abrandar as durezas certas da vida…

Porque só a poesia, dentro desta crônica primeira, dá um abraço na alma…

A despeito das bombas e dos ditadores…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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